Como vender Anarquia

de Janos Biro
Publicado Originalmente em protopia

O filme V de vingança é baseado numa história em quadrinhos que critica os regimes totalitaristas. Temas como a liberdade, o moralismo e o autoritarismo são discutidos junto com questões como identificação, massificação e violência. Num todo, é uma obra prima. Porque então alguns anarquistas se revoltaram quando Hollywood fez a versão cinematográfica de V de vingança? É fato que muita coisa foi amenizada, mas o fato da obra não estar completa não é motivo para quebrar um cinema. Pelo menos parte da mensagem estava ali, já não está valendo? Pelo menos é isso que somos levados a pensar, mas quando pensamos: porque afinal Hollywood iria fazer um filme assim? E quando vemos os produtos relacionados ao filme sendo vendidos pela Internet, começamos a desconfiar…
Esta é a descrição do produto “Máscara de V de vingança”, no site da Amazon: “Vá em frente e sorria para a câmera. Divirta todos que você encontrar com essa máscara do V de vingança. A máscara é exatamente igual àquela usada por V no filme de ação, V de vingança. A máscara é feita de plástico e vem num tamanho padrão. Por favor, note que não inclui chapéu e cabelo. A máscara tem um bigode e um cavanhaque que lembra o histórico Guy Fawkes. Vá em frente, use essa máscara e lidere a revolução, mas, por favor, não acabe na cadeia. As pessoas não deveriam temer seus governos. Os governos deveriam temer as pessoas! Imagine-se numa distopia, onde o governo controla cada movimento seu. Toda esperança estava perdida, no entanto uma pessoa, um homem, ousou se levantar e liderar uma revolução inteira sozinho. Seu nome era V, sempre se lembre, lembre-se do cinco de novembro!”
Ao ver uma idéia anarquista sendo vendida, sendo assimilada pelo capitalismo, eu finalmente entendi o que levou aqueles anarquistas a quebrarem o cinema. As pessoas estão se revoltando contra a cultura, e ao mesmo tempo a indústria cultural busca aliviar essa sensação vendendo fantasias de revolta. Criando um mundo imaginário onde você pode se revoltar, contanto que pague por isso, e assim desviando a revolta que de outra forma atingiria o mundo real. Nos revoltamos por não podermos mais nos revoltar. A sociedade usa esse artifício para manter suas contradições livres do questionamento. Isso é uma violência, não importa o quanto reprimamos isso, eventualmente ela vai se manifestar. Não importa quantas válvulas de escape sejamos capazes de construir. Quando se manifestar, podemos acabar no outro extremo, o que será ruim. Mas é a natureza humana. Quanto mais a negarmos, mas violentamente ela irá reagir. Essa é a contradição do discurso pacifista, pois não é possível ignorar a violência que já sofremos, não é possível esquecer o passado e lidar com tudo racionalmente a partir de agora. Seria ideal, mas é irreal. Por mais que você seja contra o dano à propriedade, não é possível ignorar essa reação. Você comeu comida estragada e não quer vomitar no seu terno novo, mas não vomitar não é uma opção. Segurar esse tipo de reação só vai piorar as coisas, então o negócio é saber lidar com elas.
O próprio ato de quebrar o cinema pode ser encarado como uma distração. Mais uma válvula de escape. Como de costume, não há um manual sobre o que fazer. O que podemos é identificar o que não funciona. O problema não é o fato de termos reguladores, afinal reguladores são necessários para manter um sistema em homeostase, mas sim que temos uma pseudo-regulação. Ela não expulsa a pressão, ela a acumula em outro lugar. A nossa autonomia vai sendo substituída por coisas que no fundo não a podem substituir, e o homem se sente cada vez mais carente de coisas que ele cada vez menos pode definir, porque a carência vai sendo transferida de um lado para o outro. No final ela atinge todos os aspectos do seu ser e ele se sente carente de si mesmo, sente que sua realização enquanto ser humano é impossível. Isso porque a autonomia é o princípio da vida, sem ela ninguém pode dizer que está vivo, sem ela somos meros objetos. É esse tipo de violência que a cultura comete, ela nos tira a possibilidade de estar vivo, mas não nos mata. Isso é pior que morrer. E a cultura espera que sejamos pacíficos e discutamos racionalmente sobre isso? Desculpe, mas objetos falando de liberdade não nos interessam, porque objetos não podem ser livres. O que nos interessa é resgatar nossa capacidade de ser mais que um objeto, e se essa cultura impede isso, então ela deve mudar. O que quer que ela tenha produzido que não puder ser aproveitado por seres humanos autônomos vai perder seu valor, isso inclui propriedades. A manutenção dessas existências não justifica a impossibilidade da vida humana.
E se pessoas se tornam objetos e passam a pertencer à cultura tanto quanto as outras propriedades, podem ser assassinadas? Eu não defenderia essa interpretação, porque acredito que as pessoas, por mais que reprimam isso, sempre vão buscar autonomia. Nunca serão objetos por escolha, portanto nada justifica que eu os mate por se comportarem como objetos. Os assassinatos que V cometeu eram uma vingança pessoal. Apenas ele podia se vingar dessa forma, e não sem dar a própria vida em troca. Ele aproveitou a sua vingança pessoal para lutar por algo mais que pessoal, e não o contrário. Nós sofremos a violência da cultura, mas todos sofrem. Não podemos fazer vingança contra um homem por um ato da cultura, e de nada adiantaria, pois simplesmente seriam substituídos. V se encontrava numa posição especial, foi torturado até perder a identidade. Sua vingança se tornou sua identidade, a única coisa que dava sentido à sua vida. Mas sua vida perderia o sentido depois que a vingança fosse realizada, por isso ele transformou um ato pessoal numa manifestação que fizesse sentido a todas as pessoas. Todas elas puderam se identificar entre si no fato terem suas vidas impossibilitadas pela cultura.
V nos lembra da impossibilidade de se viver numa cultura de domínio, esta é sua verdadeira obra, e não matar tiranos ou explodir o parlamento. Sabemos que essas ações por si só seriam inúteis. Com base nisso, podemos dizer se quebrar o cinema foi um mero ato de vandalismo ou um ato de “legítima revolta” em resposta à violência que foi cometida: tentar transformar uma boa mensagem sobre o totalitarismo num produto vendável que banaliza um questionamento sério, que transforma a realidade numa ficção. Que diz, em outras palavras: “Anarquismo é divertido, porque tem explosões e lutas, mas é só de mentirinha”. É triste ver as pessoas saírem do cinema “de alma lavada”, pois enquanto lavamos nossa alma com alvejante, nossa autonomia está sendo jogada no lixo.

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Fisionomia das insurreições contemporâneas

Texto do livro “Aos nossos amigos” do Comitê Invisível

Um homem morre. Foi morto pela polícia, diretamente, indirectamente. É um anónimo, um desempregado, um “dealer” disto, daquilo, um estudante, em Londres, em Sidi Bouzid, Atenas ou Clichy-sous-Bois. Dizem que é um “jovem”, tenha 16 ou 30 anos. Dizem que é um jovem porque socialmente ele não é nada, e que houve um tempo em que nos tornávamos alguém quando chegávamos a adultos, onde os jovens eram precisamente aqueles que ainda não eram nada.
Um homem morre, um país subleva-se. Uma coisa não é causa da outra, apenas o detonador. Alexandros Grigoropoulos, Mark Duggan, Mohamed Bouazizi, Massinissa Guermah – o nome do morto torna-se, nesses dias, nessas semanas, o nome próprio do anonimato geral, da comum despossessão. E a insurreição é antes de mais feita por aqueles que nada são, daqueles que vogam pelos cafés, nas ruas, na vida, pela faculdade, pela Internet. Ela agrega todos os elementos flutuantes, plebeu depois pequeno-burguês, que a ininterrupta desagregação social segrega até mais não. Tudo o que é considerado marginal, ultrapassado ou sem futuro, regressa ao centro. Em Sidi Bouzid, em Kasserine, em Thala, são esses os “loucos”, os “perdidos”, os “bons em nada”, os “freaks”, que primeiramente espalharam a notícia da morte do seu companheiro de infortúnio. Eles subiram para cima das cadeiras, das mesas, dos monumentos, em todos os locais públicos, em toda a cidade. Eles sublevaram com as suas arengas quem estava disposto a ouvi-los. Logo atrás, foram os estudantes do secundário que entraram em ação, esses que não alimentam nenhuma esperança de carreira.
A sublevação dura alguns dias ou alguns meses, conduz à queda do regime ou à ruína de todas as ilusões de paz social.
Ela própria é anónima: sem líder, sem organização, sem reivindicações, sem programa. As palavras de ordem, quando as há, parecem esgotar-se na negação da ordem existente, e são abruptas: “Bazem!”, “O povo quer a queda do sistema!”, “Estamo-nos a cagar!”, “Tayyp, winter is coming”. Na televisão, nas ondas de rádio, os responsáveis martelam a sua retórica de sempre: são bandos de “çapulcu”, de vândalos, terroristas saídos de nenhures, certamente a soldo do estrangeiro. Aquele que se levanta não tem ninguém para colocar no trono em substituição, à parte talvez de um ponto de interrogação. Não são os bas-fonds, nem a classe operária, nem a pequena-burguesia, nem as multidões que se revoltam. Nada que apresente uma homogeneidade suficiente para admitir um representante. Não há nenhum novo sujeito revolucionário cuja emergência tenha escapado, até então, aos observadores. Quando se diz que “o povo” está na rua, não se trata de um povo que existisse previamente, pelo contrário, trata-se do povo que previamente faltava. Não é “o povo” que produz a sublevação, é a sublevação que produz o seu povo, suscitando a experiência e a inteligência comuns, o tecido humano e a linguagem da vida real entretanto desaparecidas. Se as revoluções do passado prometiam uma vida nova, as insurreições contemporâneas fornecem as ferramentas. Os giros de ultras do Cairo não eram grupos revolucionários antes da “revolução”, eram apenas bandos capazes de se organizar para enfrentar a polícia; é por terem tido um papel tão eminente aquando da “revolução” que eles se viram forçados a colocar, em plena situação, as questões habitualmente entregues aos “revolucionários”.
Aí reside o acontecimento: não no fenómeno mediático, que se forjou para vampirizar a revolta por via da sua celebração exterior, mas nos encontros que efetivamente se produziram ali. Eis o que é bem menos espetacular do que “o movimento” ou “a
revolução”, mas mais decisivo. Ninguém poderá dizer aquilo de que um encontro é capaz.
É desta forma que as insurreições se prolongam, molecularmente, impercetivelmente, na vida dos bairros, dos coletivos, dos squats, dos centros sociais, dos seres singulares, no Brasil como em Espanha, no Chile como na Grécia. Não porque elas ponham em marcha um programa político, mas porque elas colocam em andamento devires-revolucionários. Porque aquilo que se viveu fica a brilhar com uma tal intensidade que aqueles que o experienciaram tornam-se-lhe fiéis, não se querem separar, antes construir de facto o que agora faz falta à sua vida de antes. Se o movimento espanhol de ocupação de praças, uma vez desaparecido o ecrã-radar mediático, não tivesse sido seguido por todo um processo de mises en commum e de auto-organização, nos bairros de Barcelona e de outros sítios, a tentativa de destruição da ocupação de Can Vies, em Junho de 2014, não teria sido votada ao fracasso por três dias de motins de todo o bairro de Sants, e não se teria visto toda uma cidade participar, ato contínuo, na reconstrução do lugar atacado. Teria havido apenas alguns ocupas a protestar no meio da indiferença generalizada contra uma enésima expulsão. O que aqui se constrói não é nem a “sociedade nova” no seu estado embrionário, nem a organização que derrubará finalmente o poder para constituir um novo, é antes a potência coletiva que, por via da sua consistência e da sua inteligência, condena o poder à impotência, frustrando uma a uma todas as suas manobras.
Os revolucionários são frequentemente aqueles que as revoluções apanham mais desprevenidos. Mas há, nas insurreições contemporâneas, qualquer coisa que os desconcerta particularmente: elas já não partem de ideologias políticas, mas de verdades éticas. Aqui estão duas palavras cuja aproximação soa a qualquer espírito moderno como um oximoro. Estabelecer o que é verdadeiro é o papel da ciência, não é assim?, que não tem nada que ver com as nossas normas morais e outros valores contingentes. Para o moderno, há o Mundo de um lado, ele próprio de outro, e a linguagem para superar o abismo. Uma verdade, como nos foi ensinado, é um ponto sólido sobre o abismo – um enunciado que descreve adequadamente o Mundo. Oportunamente esquecemos a lenta aprendizagem ao longo da qual adquirimos, com a linguagem, uma relação com o mundo. A linguagem, longe de servir para descrever o mundo, ajuda-nos sobretudo a construir um. As verdades éticas não são, assim, verdades sobre o Mundo, mas as verdades a partir das quais nós nele permanecemos. São verdades, afirmações, enunciadas ou silenciosas, que se experimentam mas não se demonstram. O olhar taciturno que surge, punhos cerrados, nos olhos do pequeno chefe e que o desfigura durante um longo minuto é uma delas, e vale bem o tonitruante “temos sempre razão em revoltar-nos”. São verdades que nos ligam, a nós mesmos, ao que nos rodeia e uns aos outros. Elas introduzem-nos de uma assentada numa vida comum, a uma existência não separada, sem consideração pelos muros ilusórios do nosso Eu. Se os terranos estão prontos a arriscar a sua vida para que uma praça não seja transformada em parque de estacionamento como em Gamonal, em Espanha, que um jardim não se torne um centro comercial como em Gezi, na Turquia, que pequenos bosques não sejam transformados num aeroporto como em Notre-Dame-des-Landes, é mesmo porque aquilo de que gostamos, aquilo a que estamos ligados – seres, lugares ou ideias – também faz parte de nós, que esse nós não se reduz a um Eu que habita durante o tempo de uma vida um corpo físico limitado pela sua pele, o todo enfeitado pelo conjunto das propriedades que acredita ter. Quando se toca no mundo, somos nós próprios que somos atacados.
Paradoxalmente, mesmo quando uma verdade ética se enuncia como recusa, o facto de se dizer “Não!” coloca-nos de pés assentes na existência. Não menos paradoxalmente, o indivíduo descobre-se então tão pouco individual que basta por vezes que um só se suicide para que voe em estilhaços todo o edifício da falsidade social. O gesto de Mohamed Bouazizi imolando-se defronte do município de Sidi Bouzid comprova-o o suficiente. A sua potência de deflagração reside na afirmação despedaçante que encerra. Ele diz: “a vida que nos é dada não merece ser vivida”, “não nascemos para nos deixarmos humilhar desta forma pela polícia”, “podem reduzir-nos à insignificância, mas nunca nos retirarão a parte de soberania que pertence aos vivos” ou ainda “vede como nós, nós os ínfimos, nós os pouco existentes, nós os humilhados, estamos para lá dos miseráveis meios pelos quais conservais fanaticamente o vosso poder decrépito”. Foi isto que se ouviu nitidamente naquele gesto. Se a entrevista televisiva de Waël Ghonim, no Egipto, após o seu sequestro por parte dos “serviços”, teve um tal efeito de reviravolta sobre a situação, foi porque do fundo das suas lágrimas explodia também uma verdade no coração de cada um. De igual modo, durante as primeiras semanas de Occupy Wall Street – antes que os habituais gestores de movimento instituíssem os seus pequenos “grupos de trabalho” encarregues de preparar as decisões que a assembleia teria apenas de votar – o modelo das intervenções diante das 1500 pessoas lá presentes era este tipo que um dia tomou a palavra para dizer: “Hi! What’s up? My name is Mike. I’m just a gangster from Harlem. I hate my life. Fuck my boss! Fuck my girlfriend! Fuck the cops! I just wanted to say: I’m happy to be here, with you all” (“Olá! Como é que isso vai? O meu nome é Mike. Sou apenas um gangster de Harlem. Odeio a minha vida. Que se foda o meu patrão! Que se foda a minha namorada! Que se fodam os polícias! Só vos queria dizer: estou feliz por estar aqui, com todos vocês”). E as suas palavras eram repetidas sete vezes pelo coro de “megafones humanos” que substituíam os microfones proibidos pela polícia.


O verdadeiro conteúdo de Occupy Wall Street não era a reivindicação, colada ao movimento como um post-it sobre um hipopótamo, de melhores salários, de casas decentes ou de uma segurança social mais generosa, mas a repugnância pela vida que nos fazem viver. A repugnância por uma vida onde estamos todos sozinhos, sozinhos face à necessidade de cada um ganhar a sua vida, de se albergar, de se alimentar, de se divertir ou de se tratar. Repugnância pela forma de vida miserável do indivíduo metropolitano – desconfiança escrupulosa/ ceticismo refinado, conquistador/ amores superficiais, efémeros/ sexualização desenfreada, em consequência, de qualquer encontro/ seguido de regresso periódico a uma separação confortável e desesperada/ distração permanente, portanto ignorante de si, portanto medo de si, portanto medo do outro. A vida comum que se esboçava em Zuccotti Park, em tendas, ao frio, à chuva, cercada pela polícia na praça mais sinistra de Manhattan, não era certamente la vita nuova inaugurada, mas apenas o ponto de onde se começava a tornar evidente a tristeza da existência metropolitana. Apercebíamo-nos, enfim juntos na nossa condição comum, da nossa igual redução ao grau de empreendedor de si. Esta mudança existencial foi o coração pulsante de Occupy Wall Street, enquanto Occupy Wall Street foi fresco e vivaz.
O que está em jogo nas insurreições contemporâneas é a questão de saber o que é uma forma desejável de vida e não a natureza das instituições que a subjugam. Mas reconhecê-lo implicaria o reconhecimento imediato da nulidade ética do Ocidente. O que impediria que se colocasse a vitória deste ou daquele partido islâmico, após esta ou aquela rebelião, na conta do suposto atraso mental das populações. Haveria, pelo contrário, que admitir que a força dos islamitas reside justamente no facto de a sua ideologia política se apresentar, antes de mais, como um sistema de prescrições éticas. Dito de outra forma, o seu maior sucesso em relação aos outros políticos deve-se precisamente a não se colocarem de forma central no terreno da política. Poder-se-á então parar de choramingar ou de gritar bicho-papão de cada vez que um adolescente sincero prefira integrar as fileiras dos “jihadistas” em vez da multidão suicidária dos assalariados do sector terciário. E aceitaremos assim, de forma adulta, descobrir a carantonha que fazemos nesse espelho pouco abonatório.
Na Eslovénia rebentou em 2012, na tranquila cidade de Maribor, uma revolta de rua que seguidamente inflamou uma boa parte do país. Uma insurreição neste país com ar quase helvético, eis algo desde logo inesperado. Mas o mais surpreendente é que o ponto de partida tenha sido a revelação de que à medida que os radares de velocidade se multiplicavam nas ruas da cidade, uma única empresa privada próxima do poder embolsava a quase totalidade das multas. Poderá haver algo menos “político”, como ponto de partida para uma insurreição, do que uma questão de radares de estrada? Mas poderá haver algo mais ético do que a recusa em se deixar tosquiar como um carneiro? É Michel Kolhaas no século XXI. A importância do tema da corrupção reinante, em praticamente todas as revoltas contemporâneas, atesta que estas são éticas antes de serem políticas, ou que são políticas precisamente naquilo que desprezam da política, onde se incluí a política radical. Enquanto ser de esquerda quiser dizer: negar a existência de verdades éticas e substituir esta carência por uma moral tão frágil quanto oportuna, os fascistas poderão continuar a passar como única força política afirmativa, como os únicos que não se desculpam por viverem como vivem. Eles irão de sucesso em sucesso e continuarão a fazer convergir para eles próprios a energia das revoltas nascentes.
Talvez esteja também aí a razão do fracasso, sem isso incompreensível, de todos os “movimentos contra a austeridade”, que deveriam nas condições atuais incendiar o horizonte e que, pelo contrário, se perpetuam numa Europa que tenta o seu décimo frouxo relançamento. É que a questão da austeridade não é colocada no terreno em que de facto se situa: o de um brutal desacordo ético, um desacordo sobre o que é viver, o que é viver bem. Dizendo de forma sumária: ser austero, nos países de cultura protestante, é antes de mais tido como virtude; ser austero, numa boa parte do sul da Europa, é no fundo ser um pobre coitado. O que se passa hoje não é apenas que alguns queiram impor a outros uma austeridade económica que os últimos não desejam. O que se passa é que alguns consideram que a austeridade é, em absoluto, uma boa coisa, ao passo que outros consideram, sem verdadeiramente o ousarem dizer, que a austeridade é, em absoluto, uma miséria. Limitar-se a lutar contra os planos de austeridade é não apenas acrescentar algo a este mal-entendido, mas também, por acréscimo, estar seguro de perder, ao admitir implicitamente uma ideia de vida que não nos convém. Não há que perscrutar demasiado o pouco entusiasmo das “pessoas” em se lançar numa batalha perdida à partida. O que é preciso é antes de mais assumir o verdadeiro desafio do conflito: uma certa ideia protestante de felicidade – ser trabalhador, poupado, sóbrio, honesto, diligente, casto, modesto, discreto – que se pretende impor a toda a Europa. O que é necessário opor aos planos de austeridade é uma outra ideia de vida, que consista, por exemplo, em partilhar em vez de economizar, em conversar em vez de calar, em lutar em vez de sofrer, em celebrar as vitórias em vez de estar à defensiva, em entrar em contacto em vez de permanecer na sua reserva. É imensurável a força que os movimentos indígenas do subcontinente americano recolheram ao assumir o buen vivir como afirmação política. Por um lado, isto traça um claro perfil daquilo pelo que e contra o que se luta; por outro, abre a porta à descoberta serena das mil outras formas de entendimento da “vida boa”, formas que por serem diferentes não são no entanto inimigas, pelo menos não necessariamente.

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Canção da Oferta e da Demanda

Arroz se obtém rio abaixo
As pessoas nas províncias mais remotas precisam de arroz.
Se eu puder manter esse arroz fora do mercado
O arroz na certa vai ficar mais caro.
Daí aos homens que puxam as barcaças vai ter que faltar arroz
E conseguirei meu arroz por bem menos ainda.

Falando nisso, o que é arroz?

Não me pergunte o que é arroz.
Não venha me pedir conselho.
Não faço a mínima ideia do que é o arroz:
Tudo o que sei é seu preço.

No inverno, os friorentos precisam de roupas quentes.
Então você deve comprar algodão para
poder manter o algodão fora do mercado.
Quando o danado do frio chega, então as roupas ficam mais caras.
Nossas fiações de algodão pagam um exagero de salários.
E de todo jeito, tem algodão demais.

Falando nisso, o que é algodão?

Não me pergunte o que é algodão.
Não venha me pedir conselho.
Não faço a mínima ideia do que é o algodão:
Tudo o que sei é seu preço.

Os operários precisam de muita comida
E isso torna o trabalho de um homem mais caro.
Para prover sua alimentação você precisa de mulheres.
Nossos cozinheiros podem fazer uma refeição mais barata, mas olha só
Aqueles comedores deixando a comida mais cara.
E de todo jeito, bem que poderíamos usar mais homens aqui.

Falando nisso, o que é um homem?

Não me pergunte o que é um homem.
Não venha me pedir conselho.
Não faço a mínima ideia do que um homem é:
Tudo o que sei é seu preço.

Poema Original de Bertoldt Brecht e Hanns Eisler
Música de Robyn Archer

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Que a crise é um modo de governo

Nós, revolucionários, somos os grandes cornudos da história moderna. E somos sempre, de uma forma ou de outra, cúmplices da nossa própria encornagem. O facto é doloroso e, por causa disso, geralmente negado. Tivemos uma fé cega na crise, uma fé tão cega e tão antiga que não vislumbramos a ordem neoliberal fazer da crise peça-chave do seu arsenal. Marx escrevia, nos dias seguintes a 1848: “Uma nova revolução só é possível na sequência de uma nova crise. Mas uma é tão certa como a outra.” E ele passaria efetivamente o resto dos seus dias a profetizar, ao menor espasmo da economia mundial, a grande crise final do capital, que em vão terá aguardado. Ainda há marxistas capazes de nos vender a crise presente como “the big one”, obrigando-nos a esperar a sua curiosa espécie de julgamento final.
“Se queres impor uma mudança”, aconselhava Milton Friedman aos seus Chicago Boys, “desencadeia uma crise”. O capital, longe de temer as crises, esforça-se agora por produzi‑las experimentalmente. Da mesma forma que se desencadeiam avalanchas para garantir a escolha da sua hora e o domínio da sua amplitude. Da mesma forma que se incendeiam planícies para garantir que o incêndio que ameaça acabará morrendo ali, por falta de combustível. “Onde e quando” é uma questão de oportunidade ou de necessidade tática. É notoriamente público que em 2010, acabadinho de nomear, o diretor do Elstat, o instituto grego de estatísticas, as falsificou sem parar, de modo a agravar as contas da dívida do país e assim justificar a intervenção da Troika. É portanto factual que a “crise das dívidas soberanas” foi lançada por um homem que na altura era ainda um agente oficialmente remunerado do FMI, instituição que supostamente iria “ajudar” os países a desenvencilhar-se. Tratava-se aqui de
experimentar à escala natural, num país europeu, o projeto neoliberal de refundação completa de uma sociedade, os efeitos de uma boa política de “ajustamento estrutural”.

Com a sua conotação terapêutica, a crise foi durante toda a modernidade esta coisa natural que surgia de forma inopinada ou cíclica impondo a necessidade de uma decisão, de uma decisão que poria termo à insegurança geral da situação crítica. O final era feliz ou infeliz, segundo a justeza da medicação aplicada. O momento crítico era também o momento da crítica – o breve intervalo em que se abria o debate relativo aos sintomas e à medicação. Não resta nada disso nos dias de hoje. O remédio já não serve para pôr fim à crise. Pelo contrário, a crise é desencadeada visando introduzir o remédio. A partir de agora fala-se de “crise” a propósito daquilo que se pretende reestruturar, tal como se designa por “terroristas” aqueles a quem se planeia atacar. Dessa forma, a “crise dos subúrbios”, em França, em 2005, terá anunciado a maior ofensiva urbanística dos últimos trinta anos contra os ditos “subúrbios”, orquestrada diretamente pelo Ministério do Interior.

Para os neoliberais o discurso da crise é um duplo discurso – eles preferem falar, entre si, de “dupla verdade”. Por um lado, a crise é o momento vivificante da “destruição criadora”, criadora de oportunidades, de inovação, de empreendedores, em que só os melhores, os mais motivados, os mais competitivos sobreviverão. “Talvez seja no fundo a mensagem do capitalismo: a «destruição criadora», a recusa de tecnologias obsoletas e de velhos modos de produção em proveito de novos é a única forma de elevar os níveis de vida. (…) O capitalismo cria um conflito em cada um de nós. Nós somos sucessivamente o empreendedor agressivo e o mandrião que, no mais íntimo de si, prefere uma economia menos competitiva e estressante, onde toda a gente ganharia o mesmo”, escreve Alan Greenspan, o diretor da Reserva Federal norte-americana de 1987 a 2006. Por outro lado, o discurso da crise intervém como método político de gestão das populações. A reestruturação permanente de tudo, dos organigramas como dos apoios sociais, das empresas como dos bairros, é a única forma de organizar, por via de uma perturbação constante das condições de existência, a inexistência do partido adverso. A retórica da mudança serve para desmantelar qualquer hábito, quebrar quaisquer laços, desfazer qualquer evidência, dissuadir qualquer solidariedade, manter uma insegurança existencial crônica. Ela corresponde a uma estratégia que se formula nestes termos: “Prevenir, por via da crise permanente, toda e qualquer crise efetiva.” Tal assemelha-se, na escala do quotidiano, à bem conhecida prática contra-insurrecional de “desestabilizar para estabilizar”, que consiste em suscitar voluntariamente, pelas autoridades, o caos a fim de tornar a ordem mais desejável do que a revolução. Da microgestão à gestão de países inteiros, manter a população numa espécie de estado de choque permanente, siderada, desamparada, a partir do qual se faz de cada um e de todos praticamente aquilo que se quiser. A depressão em massa que afeta presentemente os gregos é o produto pretendido da política da Troika, e não o seu efeito colateral.

Foi por não terem compreendido que a “crise” não era um facto econômico, mas uma técnica política de governo, que alguns se ridicularizaram ao proclamarem apressadamente, aquando da explosão da manigância dos subprimes, a “morte do neoliberalismo”. Não estamos a viver uma crise do capitalismo, mas antes pelo contrário o triunfo do capitalismo de crise. “A crise” significa: o governo cresce. Ela tornou-se a ultima ratio daquilo que reina. A modernidade media tudo pela bitola do atraso arcaico ao qual nos pretendia arrancar; daqui em diante tudo se mede pela bitola do seu desmoronamento próximo. Quando se divide por dois o vencimento dos funcionários públicos gregos, tal é feito argumentando que se poderia muito bem nunca mais lhes pagar nada de nada. Cada vez que se alonga o período de descontos dos assalariados franceses para a segurança social, tal é feito a pretexto de “salvar o sistema de reformas”. A crise presente, permanente e omnilateral, já não é a crise clássica, o momento decisivo. Pelo contrário, ela é um final sem fim, apocalipse sustentável, suspensão indefinida, diferimento eficaz do afundamento coletivo e, por tudo isso, estado de exceção permanente. A crise atual já não promete nada: ela tende, pelo contrário, a libertar quem governa de toda e qualquer contrariedade quanto aos meios aplicados.

 

Esse texto foi extraído do livro “Aos Nossos Amigos” do Comitê Invisível
A íntegra pode ser baixada aqui

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Glosas marginais sobre o Problema do Problema do Cálculo econômico

Em praticamente qualquer debate na internet relativo a políticas públicas, alguém que se posicione com programas de esquerda se deparará com respostas como “Mises refutou Marx” e “como o socialismo resolve o problema do cálculo econômico”. Ao ler a respeito dele, surgiram algumas questões intrigantes, que colocarei abaixo.

Sobre o Cálculo Econômico, como se define quão especializada deve ser uma empresa? Afinal, boa parte do que elas produzem é estabelecido através do planejamento consciente e do trabalho colaborativo de diferentes partes, que é organizada diretamente, e não fruto de “trocas” (compra e venda) das diferentes partes.
Se esse “problema” fosse realístico, deveria existir uma infinidade de empresas minúsculas, cada uma cumprindo uma função específica e vendendo esse serviço as demais. Isso nem de longe é o que ocorre.
Além disso, a “escassez” do sistema de trocas não reflete a escassez real de diferentes bens (consequentemente, não poderia “administrar” esta de forma “eficiente”. Podemos ver um exemplo simples disso no seguinte caso: mesmo que houvesse uma quantidade infinita de terras, elas poderiam ter um numero limitado de donos, e estes poderiam impor aqueles que não possuem terras quais as condições de troca.Por sinal, o que caracteriza o “sistema de trocas” e a propriedade privada, é, justamente esse poder de “veto”, da parte do capitalista, de “decidir” como e por quanto deseja vender a mercadoria que tem a oferecer. (o acesso a ela, necessariamente, só se dá com seu consentimento)

Ludwig Von Mises

Isso também ilustra como o capitalismo produz um uso distinto dos recursos existentes: eles serão usados TAL COMO SE fossem escassos (mesmo que nem o sejam, efetivamente) e, como resultado, cada capitalista individualmente desejará a perpetuação dessa escassez da mercadoria que tem a vender.
Além disso, os defensores do Calculo Econômico parecem assumir que seria completamente imprevisível determinar o “desejo” do mercado se não no momento da troca, já que as escolhas seriam “subjetivas” e tão imprevisíveis quanto a mente humana.Assim, seguindo essa linha de raciocínio, nada mais absurdo que o Estado fosse prover recursos: ele não seria capaz de saber o que as pessoas querem! Se ele “fosse administrar um deserto faltaria areia!”
Mas isso, até onde eu saiba, também está longe de ser verdadeiro. Não é necessário muita “ciência” para perceber que existirá a demanda por água ou alimento, por exemplo.
E é habito corriqueiro das empresas estipularem, racionalmente, quais serão as demandas futuras, o que lhes confere vantagens estratégicas. De fato, o trunfo do Iphone seria justamente o planejamento econômico na forma de departamentos de pesquisa do consumidor e de marketing…
O Cálculo Econômico, da mesma forma que lida com a “escassez” artificial, no lugar da real, também avalia demandas artificiais no lugar de reais: se eu tenho mil dólares, aquilo que desejo adquirir com ele é “computado”. Se, por outro lado, não possuo nada, minha demanda não é “registrada” em lugar algum. Mas atribuir a “posse” de recursos naturais ou o dinheiro nas mãos de umas pessoas em detrimento das demais, não foi um processo mais justo ou mais “natural” do que aquele que atribuía a prioridade de recursos ou exclusão com base na “cor” (como na Africa do Sul) de pessoas ou sua “raça” (na Alemanha nazista). Como podemos ver, longe de “resolver” a questão de escassez e determinar a “alocação eficiente de recursos”, o que a ideia de Cálculo Econômico parece mostrar é o quão frágil, arbitrário, injusto e ineficaz é o atual modelo de “economia de mercado” baseado em propriedade privada.

Registro do momento aonde o mercado atende a demanda por exclusão social de um indivíduo livre

Texto escrito pelo Flautista de Hammelin

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O Trabalho Assalariado no filme Queimada!

Diálogo retirado do filme “Queimada!” de 1969.
O filme pode ser assistido gratuitamente aqui.

Nesse diálogo, participam os membros da elite branca escravagista da ilha, os fidalgos descendentes de portugueses e o agente britânico Sir William Walker que conspiram para realizar a independência da colônia de Queimada e a abolição da escravatura.

Sir William Walker: Senhores, deixe-me fazer uma pergunta. Minha metáfora poderá parecer um pouco impertinente… mas acredito que é exata.
O que preferem… ou devo dizer, o que acham mais conveniente? Uma esposa ou uma dessas mulatas? – se referindo às mulheres semi-nuas do harém – Não me interpretem mal. Falo estritamente em termos econômicos.
Qual é o custo do produto? O que o produto propicia? O produto, no caso, sendo o amor. Amor puramente físico… já que, obviamente, sentimentos não têm um papel econômico. Praticamente.
Uma esposa precisa de um lar… com comida, roupas, cuidados médicos, etc. É necessário mantê-la a vida toda… mesmo depois que envelhecer e se tornar improdutiva.
E se tiverem o azar de viverem mais do que ela, terão de pagar o enterro. – em meio às risadas, ele continua – Não, não. É verdade. Senhores, sei que parece divertido, mas são os fatos, não são? Por outro lado, com uma prostituta… o assunto é diferente, não é? Não há a necessidade de abrigá-la ou alimentá-la…e certamente nem de vesti-la ou enterrá-la. Graças a Deus!
Ela é sua só quando precisam. Pagam-na somente por esse serviço… e a pagam por hora. O que, senhores, é mais importante… e mais conveniente? Um escravo ou um trabalhador assalariado?

O que acham mais conveniente? O domínio estrangeiro, com suas leis, vetos, impostos… monopólios comerciais, ou a independência? Com seu próprio governo, leis, administração… e a liberdade de comerciar com quem quiserem… sob termos ditados somente pelos preços do mercado internacional.

Teddy Sanchez: Não só pela liberdade de comércio, Sr. Walker. Acredito que, para muitos de nós…há motivos idealistas ainda mais importantes. Somos agora uma nação, uma pequena nação. Nascidos aqui e forjados pela labuta… levou mais de três séculos. Uma nação que se originou de Portugal… mas que não faz mais parte de lá. E que não quer mais ser uma colônia portuguesa.

Sr. Prada: Tudo certíssimo, meu caro Teddy. Todos concordamos quanto aos motivos idealistas. Mas é o exemplo da prostituta… que ainda não me convenceu, Sr. Walker.
O que acontecerá quando o negro não for mais um escravo… e, em vez de trabalhador, quiser ser o patrão?

Sir William Walker: É exatamente o que acontecerá se continuarmos a discutir o caso. Há quatro meses, José Dolores… estava em Sierra Madre com uma dúzia de homens. Agora, há milhares. Espalham-se pelas planícies. Em minha opinião, se não tomarem uma atitude imediata… se não se envolverem nessa revolta… serão aniquilados.
Em vez de se tornarem trabalhadores, seus ex-escravos… não se tornarão seus patrões, Sr. Prada… e sim seus carrascos.
Agora, quais são os meus interesses no assunto? Quem sou eu? É muito simples. Represento Sua Majestade Britânica. Um agente britânico, se preferirem. Mas na verdade, a Inglaterra quer o mesmo que vocês… a liberdade de comércio e, assim, o fim da dominação estrangeira na América Latina. Contudo, o que a Inglaterra não quer… e o que acho que vocês também não… são essas revoluções levadas a conseqüências extremas. Homens como José Dolores e Toussaint L’Ouverture… são talvez necessários para iniciar algo… mas depois disso, se tornam muito perigosos. Como no Haiti.

Sr. Prada: Certamente tem razão quanto a isso.

Sir William Walker: Então, senhores, como vêem… acho que, pelo menos no momento, nossos interesses coincidem… e coincidem também com o progresso e a civilização. E para os que acreditam nisso, é importante.

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O Grande Jogo

Personagens:

  • Eu (industriais e capitalistas)
  • Você (operários)
  • Negra Figura (Lei)

(Abrem-se as cortinas)
Eu ― Desçam ao interior da terra. Tragam à luz o
carvão e o ouro, o ferro, a prata e as pedras preciosas.
Você ― Considere feito.

Eu ― Construam fábricas e maravilhosas ferramentas
e modelem o mundo em júbilo e beleza.

Você ― Considere feito.

Eu ― Muito bem, meus homens. Maravilhoso! Quanta
abundância! Quantas riquezas! Todas minhas.

Algumas vozes ― Suas? Por quê? Nós fizemos tudo!
(Comoção no palco)
Mais vozes (enfurecidas) ― São nossas! Nós as fizemos.

Eu ― Silêncio! Eu não mandei que o fizessem?

Vozes ― Mas é nosso. Nós o fizemos.

Eu ― Chamemos a Lei!
(Entra a Negra Figura, vestida de preto, levando uma
Bíblia em uma mão, a espada desembainhada na outra.
As duas mãos com luvas)
(Um silêncio solene quando fala a Lei)

Negra Figura ― É seu. Assim está decretado. A integridade
de nossas justas e livres instituições deve ser
mantida.

(Todos reverentemente ajoelham-se diante da Negra
Figura)
(Sai a Negra Figura)

Eu (orgulhosamente jubiloso) ― É meu, por Lei.

Você ― Nós somos pobres. Nossas esposas precisam
de comida, nossas crianças têm fome.

Eu ― Eu darei a vocês as coisas de que precisam.

Você ― Nos dê! Nos dê!

Eu ― Em troca de mais trabalho. Venderei as coisas
que vocês fazem e lhes darei um salário por isso.

Você ― Salários! Bons salários?

Eu ― Sim, um salário justo.

Você ― Tome, tome! Um salário justo!

Eu ― Entregarei a vocês comida e roupa em troca de
seus salários.

Você ― Um amo carinhoso! Tome, pegue nossos salários!
(Eu pega os salários e entrega escassas rações de
comida)
(Você, depois de ter devorado a comida, em pé com as
mãos vazias, com semblante satisfeito)

Eu (com profunda auto-satisfação) ― A indústria e a
economia são a coluna vertebral de nossa grande prosperidade
nacional.

Você ― Mas nós não obtivemos nada.

Eu ― Elejam-me para o ministério e aprovarei uma
lei para abrir cozinhas populares para aqueles dentre
vocês que merecerem minha generosidade.

Você ― Viva! Viva! Nosso candidato!
(Um desfile com tochas)
(Fecham-se lentamente as cortinas)

Alexander Berkman

 

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Como o mercado REALMENTE resolve tudo

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Bertolt Brecht

 

Conforme relata o texto Pessoa-coisa, cidade-torre descobrimos que:

“Em 6 de dezembro de 2006, o então prefeito Gilberto Kassab aprovou a Lei Municipal n.14.223, que proíbe a colocação de anúncio publicitário nos imóveis públicos e privados, edificados ou não bem como a propaganda em outdoors. Conhecida como “Lei Cidade Limpa”, a medida, à época, fez com que as fachadas da cidade se tornassem menos visualmente poluídas, já que também regula o tamanho de letreiros e placas de estabelecimentos comerciais. No entanto, teve um efeito colateral: os anúncios imobiliários desceram dos postes e passaram a ser empunhados por seres humanos.”

 

Trata-se do “milagre dos mercados”, cuja caráter líquido, poroso, permite invadir todas áreas da atividade humana, e cada espaço do globo, como uma força incontornável comparável a gravidade.
Tal poder, no entanto, não está presente ele mesmo dentro de um pedaço de papel, o dinheiro.Afirmar isso, é claro, seria tão absurdo quanto dizer que um carro se move sozinho, por um fantasma, ignorando a gasolina que se encontra dentro dele.
Do mesmo modo, escondido por trás desse “milagre” do mercado, está o trabalhador que, para sobreviver, se deixa espremer, tal qual suco, enquanto sua vida escoa no seu local de trabalho. Ao processo de atribuir a objetos aquilo que é o produto da atividade humana, Marx chamou de “fetichismo da mercadoria”, enquanto que a exigência ao trabalhador de abdicar do controle consciente sobre si mesmo, Marx deu o nome de “alienação” assim como mais tarde “trabalho abstrato”.

Algumas vezes, os próprios capitalistas ficam tão vidrados no dinheiro que se esquecem do “fator trabalho” agindo debaixo dos panos: vide o recente caso das greves dos policiais em Espírito Santo , onde o Fecomércio local “aprendeu” na prática que sem uma “mãozinha” do exército e a polícia militar se encontram reduzidos à impotência.
No fantástico texto A Reprodução da Vida Cotidiana, Fredy Perlman nos explica:

“Nas pinturas dos economistas, os anjos, trabalhadores celestiais, fazem tudo e os homens nada fazem. Os homens simplesmente gozam o que os anjos fazem para eles. Não apenas o Capital produz e o dinheiro trabalha; outros misteriosos seres possuem virtudes similares.”

E mais adiante:

” As atividades da vida cotidiana são desempenhadas pelas coisas, e as pessoas são reduzidas à coisas (‘fatores de produção’) durante suas horas ‘produtivas’ e em espectadores passivos de coisas durante o seu tempo de lazer. O mérito do economista consiste em atribuir o produto da atividade cotidiana das pessoas às coisas e em não ver a atividade das pessoas por trás da extravagância das coisas. Para o economista, as coisas (por meio das quais a atividade das pessoas é regulada pelo capitalismo) são elas mesmas mães e filhos, causas e efeitos de sua própria atividade.”

Para mostrar o absurdo disso vamos usar um exemplo simplificado.Imagine que eu tenha notas de uma moeda chamado valia, digamos, “10 valias bolso”. Eu me aproximo de ti então e digo: “veja, trabalhe para mim quatro horas plantando,e então eu te devolvo 5 valias”. Você me pergunta então: “mas para que eu preciso dessas notas, as 5 valias”? E eu digo: “para comprar uma parte do que eu produzi, por 3 valias”.
Repare que eu não “produzi” nada: o que eu fiz foi pegar um pedaço de papel, uma “licença”, que veta a atividade humana, e então direcioná-la ao meu próprio interesse. O que o trabalhador “compra” de mim não foi nada mais do que uma parte do que ele mesmo havia previamente produzido! Tal situação, é claro, é absurda e, no entanto, é desse absurdo (esse dogma) que consiste nossas vidas todos os dias.

 

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O dia em que o Batman entendeu a luta de classes

Em um universo paralelo, os personagens do universo do Batman trabalham em uma empresa de TI. Certo dia, o Coringa resolveu aprontar mais uma das suas e criar polêmica no chat da empresa sobre o feriadão que o diretor da empresa iria fazer, emendando um feriado regional ao fim de semana, mesmo depois de ter expressamente proibido os seus “colaboradores” de fazerem isso, inclusive com a demissão de um deles por fazê-lo:

Coringa : concordo com o Batman, tem que fazer feriadão mesmo!
Batman : quem deletou o postman do meu chrome
Coringa : o problema é que ele pode e nós não
Batman : porra Pinguim
Batman : sim mas ele é o diretor
Batman : se tu fosse o diretor
Batman : tu ia ficar na sexta?
Batman : pfff
Coringa : “mas ele é o diretor” e daí?
Batman : o mais legal é mandar os empregado trabalhar e tu ficar em casa
Coringa : o que tem que ele é diretor?
Batman : ele pode, ele faz oq ele quer
Batman : o resto aceita
Coringa : hahah
Coringa : obrigado por confirmar a existência luta de classes
Batman : que luta?
Batman : eu não vou lutar!
Batman : vou vir quietão
Coringa : hueheuehueh
Batman : vou trabalhar de boas
Coringa : notar o problema
Coringa : é o primeiro passo pra resolver
Batman : que problema cara? O único problema que vejo é q não existe um banco de horas
Batman : o Pinguim comentou q seria legal se vocês pudessem usar as horas
Batman : mas nem isso podem
Batman : agora isso sim é ruim
Batman : dai isso é luta de que?
Batman : luta de hora?
Coringa : de classes mesmo. Você tem o interesse XYZ e o patrãozinho o interesse ZYX
Coringa : você tem que abaixar a cabeça porque é de uma classe inferior
Batman : sim mas ele é teu patrão cara, wtf
Batman : isso se chama
Batman : hierarquia
Coringa : sim, sim
Coringa : não neguei isso
Batman : até em casa tem isso, quando tu é menor de 18, tu supostamente deveria obedecer teus pais de cabeça baixa
Batman : correto?
Batman : só que na vida o teu patrão é teu pai forever
Batman : só tem a opção de ser o pai tb
Batman : mas aceitar quieto não significa q ele esteja certo
Batman : só q ele ta numa posiçao mais alta que a tua
Coringa : você acabou de relacionar o patriarcado com a luta de classes
Coringa : parabens! agora você é “feminista” também!
Coringa : hahahaha
Batman : por que feminista?
Batman : cara
Batman : olha pra mim
Batman : ve se eu tenho cara de quem sabe alguma coisa
Coringa : não saber é bom cara
Coringa : calma…
Batman : eu to falando por falar isso
Batman : kkkkk
Batman : é só o que passa na minha cabeça
Coringa : kkk e você está certo em tudo o que disse
Coringa : o passo alem que dou é questionar tudo isso
Coringa : de onde vem a autoridade do patrão
Coringa : do pai de famíla
Coringa : e por ai
Pinguim: vem de pagar teu salario
Batman : ta eu também concordo em questionar, mas é que é meio infeliz isso porque é dificil mudar. Também concordo em não pensar “ah não vai mudar mesmo” dai ninguém faz nada
Batman : ah do pai de familia até faz sentido ne cara, pelo menos até uns 10-12 anos tu aprende muita coisa e é guiado por muita coisa do que os teus pais falam, que supostamente devem ser coisas boas, pra eles te ensinarem uns tralalala conforme tu cresce e tal
Batman : agora do patrão eu não sei mesmo…
Coringa : outra hora te explico isso
Coringa : com menos café e mais cerveja no sangue
Batman : continua o café pq eu n bebo
Batman : HEUHEUEHUE

 

Leia mais diálogos entre super-heróis e super-vilões

Cotidiano numa empresa de TI

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O Monstro Assimilador

Por Janos Biro

Aqueles que estão tentando colaborar com uma mudança qualitativa na sociedade, defendendo o fim da submissão e da concentração de poder, têm que ter uma coisa em mente: a capacidade da ordem vigente de assimilar e transformar movimentos, mesmo os mais radicais, em idéias inofensivas ou mesmo oportunidades para o comércio e para a perpetuação do capitalismo. O capitalismo já devorou o movimento hippie, que hoje pode ser comprado em lojas de marca ou em feiras populares. Já devorou o ambientalismo, que é defendido por supermercados e por igrejas. Está devorando o anarquismo e o feminismo, que estão se tornando acessórios de moda. Os marxistas se dividem em infinitos grupos que se odeiam mais do que odeiam o capitalismo. Não podemos simplesmente achar que basta superlotar a boca do monstro até que ele não possa engolir mais nada, porque sua enorme boca tem um poder incrível de expansão. Cada movimento revolucionário que ele engole aumenta sua capacidade de engolir outros movimentos com cada vez menos mastigação.

O capitalismo precisa expandir mercados, sempre. Um novo movimento de insatisfeitos é sempre uma nova oportunidade de vender novos produtos. O capitalismo está perfeitamente satisfeito em vender coisas que supostamente o criticam, o ofendem e o atacam, pois, contanto que as pessoas continuem comprando produtos, ele vai continuar se expandindo. Ele prepara terreno dando boas vindas a ONGs e outras organizações que supostamente estão tentando corrigir problemas do sistema. As pessoas estão cada vez mais insatisfeitas, e por isso há cada vez mais voluntários lutando contra os efeitos do sistema. Eles estão consumindo livros, estão organizando encontros e estão prosseguindo sua vida como consumidores, por mais conscientes e bem intencionados que sejam. Eles medem suas conquistas pelas lutas que travam, e não pelas lutas que não mais precisarão ser feitas. Ano após ano, aumentam os esforços para conter os estragos do monstro, e ano após ano os estragos aumentam, mais assuntos precisam de atenção imediata e urgente, e há mais pessoas lutando mais firme e assim por diante. É uma bola de neve. Será que existe alguma alternativa viável de ação que não possa ser assimilada pelo capitalismo?

O que eu tenho aqui é uma proposta, apenas uma sugestão para criar uma alternativa ao “movimento”. Em primeiro lugar, nunca use essa palavra para se referir ao que você está tentando fazer. A palavra “movimento” já está carregada de conceitos que atraem o olfato do monstro mais rapidamente. Ao invés disso, eu sugiro usar uma palavra diferente para cada ocasião, como confluência ou coalizão. Use o dicionário, invente uma palavra nova ou não use palavra alguma. Isso é útil para que as pessoas se perguntem: afinal, o que é isso que você está fazendo? Aí você tem uma oportunidade de explicar não só o que é, mas como é. Se tivermos algo como “movimento ciber-eco-anarco-romantico-feminista”, as pessoas reagirão automaticamente ao nome, em geral para dizer que é uma bobagem. Então, nunca faça um movimento, faça algo mais.

  1. Mas o que este “algo mais” precisa ter para ser realmente imune à assimilação? Há um número de sugestões que já foram feitas em outras ocasiões e que talvez sejam úteis agora: Não repita o que já foi tentado no passado, tente algo novo.
  2.  Espalhe idéias e não ideologias.
  3. Conte vitórias por mudanças qualitativas, e não quantitativas.
  4. Não crie ou melhore modelos estáticos, mas contribua para uma mudança contínua e dinâmica nas causas dos problemas, e não simplesmente nas conseqüências.
  5.  Não feche seu objetivo a alvos específicos, mas amplie sua análise para uma visão holística dos problemas.
  6. Rejeite todos os termos pré-moldados que possam etiquetar suas ações.
  7. Faça isso por você mesmo, não por um “ideal moral superior”.
  8. Não espere derrubar o velho para então criar o novo, nem crie o novo antes, o que já seria uma idealização, mas crie o novo enquanto destrói o velho e como parte inseparável dessa destruição.

Eu quero comentar algumas dessas sugestões. É possível fazer algo novo? Só há uma maneira de saber: tentando. Qual a diferença entre espalhar idéias e espalhar ideologias? Uma ideologia lembra um conjunto completo de idéias, que são facilmente elevadas ao nível de doutrina, e que por sua vez quase sempre se mantêm através de dogmas. Não podemos nos trancar numa visão estática de mundo, por mais que ela pareça funcionar idealmente, a realidade não funciona como nossas mentes. De nada adiante comemorar coisas como “25 anos de luta!”, “100.000 associados!”, “10.000 pessoas beneficiadas!”. A medição quantitativa de resultados é enganosa porque a quantidade de problemas pode estar aumentando ainda mais, nem sempre no mesmo lugar. “Bem, fazemos nossa parte reduzindo os índices de (o que for) em 35%, agora é trabalho de outra organização reduzir os índices de (outra coisa) que tem aumentado assustadoramente nos últimos anos”. Esta é a importância da visão holística, não ficar preso a um resultado fragmentado e insuficiente, mas considerar as conexões ocultas entre os problemas. Não só é preciso rejeitar os termos, mas a lógica e a moral civilizatória. Precisamos superar a linguagem civilizatória, que é uma linguagem feita para a dominação. Ao invés de uma revolução precisamos de uma resolução. A questão número oito é a mais polêmica, alguns são mais niilistas e outros são mais idealistas, e eu acho que há espaço para ambos, desde que no final se equilibrem. Alguns vão preferir destruir o velho, outros vão preferir criar o novo, e ambos não podem se isolar, mas dialogar e perceber que estão trabalhando juntos afinal.

O que há de tão desvantajoso na noção de “movimento”? Para começar, movimentos tendem a separar as pessoas em grupos distintos: há o movimento feminista, o ecologista, o anarquista, e eles raramente conversam entre si. Isto também exclui as pessoas comuns e intimida os novatos: “Ei, você nunca foi numa reunião, você não usa nossa camiseta, você não doou um centavo, você nem sequer leu este livro, como pode dizer que faz parte do movimento?”. Fora de um movimento podemos dizer que estamos apenas contribuindo para a disseminação de certos questionamentos e idéias. Isto atrai novas pessoas sem separar as antigas: “Que idéias são essas que você debate tanto com aquele cara?”. As pessoas podem fazer parte da mudança sem precisar ter carteirinhas de sócio e sem começar de baixo. Não há compromisso com o grupo só porque é um grupo. Só há compromisso com as suas próprias idéias. Grupos devem ser formados pelos laços de amizade e intimidade, e não por frágeis laços de idéias comuns, que no fundo podem causar mais conflitos que resoluções porque nunca são exatamente iguais. Isso também elimina a hierarquia disfarçada do “ele sabe mais, e nós sabemos pouco”. É também importante sair do mero jogo numérico de tentar converter o máximo de pessoas possível. É mais vantajoso em longo prazo desenvolver idéias entre amigos do que entre desconhecidos, cujo valor passa a ser meramente o de um número a mais para o grupo. Alcançar uma ou duas pessoas que seja, mas de maneira profunda e permanente, é melhor que atingir milhares que se esquecerão do que você disse na próxima semana.

Outras armadilhas que podemos evitar são: reduzir tudo a poucas opções: “direita ou esquerda”. “capitalismo ou socialismo”, “isto ou aquilo”. Um movimento tende a restringir seu alcance dizendo “somos um movimento pró isto, isto e isto e contra aquilo, aquilo e aquilo outro”. É também uma grande desvantagem o fato que uma pessoa raramente consegue fazer parte de mais de um movimento, mesmo que tenham objetivos parecidos, porque é sobrecarregada por ele. Devemos sempre fugir do extremismo: “abaixo tudo!”, ou o inverso “tudo é bom, tudo é válido”. É claro que precisamos de definições, mas elas não precisam ser imutáveis, devem ser flexíveis o bastante para ficar firmes sem se quebrar. Quanto maior for a descentralização de organização, mais podemos atacar por todos os lados e atrapalhar bastante a capacidade do monstro de abocanhar a “cabeça do grupo”, mas tudo isso ainda não garante que não seremos assimilados. Até agora o que foi discutido foi uma alternativa ao “como fazer”. Deve haver uma alternativa também ao “que fazer”.

Para falar disso, eu gostaria de expandir nossa metáfora do monstro que assimila tudo. Ele não simplesmente destrói movimentos, ele adquire seu “poder” quando os assimila, e se torna capaz de usá-los contra os próximos inimigos, como um vilão de desenhos animados e história em quadrinhos. Contra esse tipo de charada existem duas soluções criativas, desenvolvidas por contadores de estórias. Uma delas parte do princípio que é impossível não ser assimilado, mas ainda não está tudo perdido! A idéia é dar algo aparentemente poderoso para que o monstro engula. Uma das propriedades dessa coisa, em contato com outro elemento interno do monstro, cria uma nova coisa, imprevisível para o monstro, e que irremediavelmente o levará à morte ou anulará todos os seus poderes. A outra solução parte do princípio que com bastante paciência e observação do ponto fraco do inimigo, é possível fazer um ataque “super-hiper-efetivo”, que matará o monstro antes que ele possa dizer “eu compro”, isto quer dizer, antes que ele possa assimilar as idéias. Ambas estão sujeitas à critica, mas é o melhor que eu posso oferecer no momento.

Eu não tenho um exemplo real para dar em nenhuma das opções. Se eu soubesse de um exemplo real que funcionasse contra o Estado, eu já o teria usado. Não estou sendo enigmático, estou sendo o mais claro que posso. Tanto quanto eu sei, ainda não inventaram nada que possa fazer o papel nem da primeira idéia nem da segunda. Mas o fato de que ninguém pensou nisso ainda não significa que ninguém jamais pensará. Não podemos desistir de inventar novas idéias, principalmente porque faz muito pouco tempo que estamos nos ocupando seriamente com a questão da civilização, e só recentemente adquirimos alguns conhecimentos que realmente nos ajudam a identificar qual a verdadeira questão. No mais, um detalhe importante é lembrar que não basta destruir o monstro. Isso ele já está fazendo sozinho, ele está entrando em colapso. O problema é como deixar ele cair sem que ele destrua todos nós, ou fazer com que ele caia antes que possa maximizar ainda mais seu potencial de destruição e seu alcance.

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